Cinema para além dos sentidos

As luzes se apagam, a sala escurece, uma grande tela acende. Planos de imagens em sequência invadem a visão, montados e acompanhados de sons, que adentram a audição com trilhas sonoras e diálogos. Estamos no cinema, desfrutando de uma obra audiovisual. Seria esta uma experiência imutável, com seus limites pré-definidos pelos sentidos?

Para Túlio Rodrigues, audiodescritor e produtor do Alumiar e do Festival VerOuvindo – que exibem filmes para pessoas com deficiências sensoriais, a resposta é não. ‘’O cinema é algo amplo. Assistir a um filme é encarar um mundo de sensações, sejam elas instigadas das mais diversas maneiras, não podemos limitá-las. Cinema Acessível é isso, expandir o conceito de como a gente encara uma obra audiovisual, e incluir pessoas com deficiências sensoriais neste processo’’, afirma Túlio.

O cinema acessível surge como uma alternativa real e necessária para desconstruir e expandir a forma de consumo da sétima arte. Uma experiência cinematográfica para quem não pode usufruir plenamente, na acepção da palavra, do ‘’áudio’’ ou do ‘’visual’’.

Sendo uma forma alternativa, o cinema acessível também possui processos próprios de execução. Na acessibilização comunicacional dos filmes existem três métodos principais:

Audiodescrição (AD): Forma de tradução audiovisual usando pausas naturais no diálogo ou elementos sonoros cruciais, que aparecem na tela, para inserir a narrativa, descrevendo ou traduzindo a imagem visual para pessoas cegas ou com baixa visão. Durante a exibição do filme, a voz do audiodescritor, com um roteiro pré-esquematizado, descreve para o público o que é projetado na tela pelo sistema de som da sala ou por um aparelho de audiodescrição.

Libras: A língua brasileira de sinais que expressa através da combinação de configurações de sinais com as mãos, movimentos, pontos de articulação, além de expressões faciais e corporais, as falas e os sentimentos de entonação para o público surdo ou ensurdecido do que é projetado em tela. Durante a exibição do filme, um intérprete de libras aparece em uma pequena janela no canto inferior direito da tela.

Legenda para surdos ou ensurdecidos (LSE):  Legendas com características específicas para o público com deficiência auditiva, como identificação de personagens e colchetes com informações de sons ambiente e secundários.

Além desses processos de pós-produção, a acessibilidade comunicacional no cinema vem se diversificando bastante nos últimos anos. Pablo Romero Fresco, pesquisador espanhol titular Ramón y Cajal na Universidade de Vigo e professor honorário de Translation and Filmmaking na Universidade de Roehampton, é um dos principais desenvolvedores do método AFM – Accessible Filmmaking, conceito que promove a integração de acessibilidade de mídia e a tradução audiovisual como parte do processo de filmagem, e não as relega a etapas posteriores. ‘’ Eu não via muitos diretores enxergando processos de tradução dentro de suas produções enquanto filmavam. Então fiz um documentário pensando de uma forma diferente desde o início, e deu certo. Foi aí que comecei a colocar as ideias no papel’’ conta Pablo. ‘’Depois de 4 anos, tudo começou a tomar forma. Hoje temos uma equipe de produtores, pesquisadores e cineastas que sempre estão aprimorando o método e buscando parcerias. Já entramos em contato até com a Netflix’’ completa.

Formação de novos públicos nas salas dos cinemas pernambucanos

Ainda sendo um tipo de cinema alternativo, o catálogo de filmes acessíveis para pessoas com deficiências sensoriais é curto, assim como a oferta de sessões acessíveis. Para suprir essa falta são oferecidos aplicativos de audiodescrição para cegos, ou os que acessibilizam obras para stream. Mas, os principais avanços vêm aparecendo no surgimento de projetos que têm como objetivo formar novos públicos nas salas de cinema.

Em Pernambuco, o Festival VerOuvindo vai para sua 5º edição trazendo uma programação de mostras competitivas, sessões especiais e oficinas, apenas com filmes exibidos nas três modalidades de acessibilidade comunicacional: LSE, Libras e audiodescrição. O festival foi recentemente premiado no “Concurso de Boas Práticas da Sociedade Civil do Mercosul em Acessibilidade Audiovisual”.

A Sessão Alumiar, do Cinema da Fundação Joaquim Nabuco, é outra que vem trabalhando na disseminação do cinema acessível em Pernambuco. O projeto é pioneiro no Brasil em acessibilizar filmes nacionais nas três modalidades, e exibir na sua programação regular (quinzenalmente), com entrada gratuita. A estrutura da sala de exibição também é preparada especialmente para recepção do público, sendo disponibilizado o programa da sessão em braile e uma maquete tátil para o reconhecimento dos espaços.

Além de criar um rico catálogo de filmes nacionais acessíveis, o projeto também contribui para a formação de profissionais, estudantes e pesquisadores da área de acessibilidade. No total já foram realizados três ‘’Encontro Alumiar’’, que trazem na suas programações oficinas, masterclasses, debates e mesas sobre acessibilidade no cinema. Um dos convidados, inclusive, foi o já citado renomado pesquisador Pablo Romero Fresco.

“A ideia é que as sessões se tornem um espaço de discussão e avaliação do modelo de acessibilidade aplicado aos filmes, com debates e pesquisas realizadas entre público e especialistas.’’ destaca a idealizadora e coordenadora do projeto Alumiar, Ana Farache, gestora do Cinema da Fundação.

Completando seu primeiro ano de existência, o projeto irá se expandir. “A previsão é que a partir do início próximo ano o Projeto Alumiar comece sua segunda etapa, quando será itinerante e levado aos municípios de todas as regiões pernambucanas e também às capitais dos demais estados nordestinos.”, afirma Ana.

A linguagem do Cinema é, intrinsecamente, acessível

Pôster do filme ‘Blue’ de Derek Jarman

Quem acha que  o cinema acessível se limita a métodos de acessibilização está enganado. A linguagem da sétima arte permite, também, inovações na síntese das próprias obras audiovisuais.

O diretor britânico Derek Jarman foi um dos cineastas que inovou no uso dessa linguagem. Quatro meses antes da sua morte por HIV, o realizador lançou seu último filme. Blue (1993), além de um testamento de Derek, é uma obra que ultrapassa os limites da convencionalidade na interação entre imagem e som. Tendo sua visão parcialmente afetada pela doença, o cineasta só conseguia enxergar tons de azul, e foi daí que tirou sua inspiração para o filme. Com 79 minutos de duração, a obra possui apenas um plano: uma tela azul. Enquanto encaramos a imagem estática da cor azul, podemos ouvir uma narração que conta desde o dia-a-dia do diretor, até uma história sobre um personagem chamado Blue e suas batalhas contra outras cores. Uma experiência que prioriza a subjetividade do que sentimos e pensamos ao que está explicitamente posto na tela.

Outro grande filme que trabalha com a acessibilidade na linguagem cinematográfica foi lançado ano passado, Esplendor da diretora japonesa Naomi Kawase. Além de buscar uma relação, certas vezes dramática, entre os personagens cegos e videntes trabalhando na audiodescrição de uma película, o longa perpassa pontos extremamente importantes sobre o método audiodescritivo.

Cena do filme ‘Esplendor’ da diretora japonesa Naomi Kawase

‘’É um dos filmes mais importantes que já vi sobre o tema. Ele trata dessa problemática da objetividade na audiodescrição, que uma pessoa vai lá, escreve e conta para o cego. E, como o filme mostra, não é assim. O processo todo conta também com a subjetividade e, ainda mais além, com a relação do audiodescritor com o próprio realizador do filme’’ afirma Ernesto Barros, crítico de cinema e curador do Cinema da Fundação Joaquim Nabuco.

*Todas as fotos foram tiradas por Thaís Lima.

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