Os americanos were here

No ano de 1961, um galego de olhos claros visita o Engenho de Galiléia. Era Edward Kennedy, irmão do então presidente dos EUA, que em sua viagem pelo Brasil como ‘’observador especial’’, se interessou pelo berço das Ligas Camponesas.

Sob o holofote da imprensa internacional, o movimento já havia sido batizado de ‘’Fidelista’’ pelas páginas do jornal The Times. Naquela década, aquele engenho no interior de Pernambuco, como o Nordeste todo, estava sendo descoberto por um mundo dividido pela Guerra Fria.

Uma semana após a visita de Kennedy ao país, a CIA criou o relatório intitulado ‘’As perspectivas do Brasil’’, onde falava sobre questões acerca das ações de Jânio Quadros, o presidente brasileiro na época, e citava a atuação das Ligas Camponesas, classificando o Nordeste como terreno fértil para uma insurgência comunista. ‘’O partido comunista e seus aliados pró-Castro provavelmente serão capazes de manter o pobre Nordeste rural em agitação’’, relatava o texto. A partir daí, crescia o forte interesse norte-americano pela região, que através da ‘’Aliança para o progresso’’ iniciou uma série de intervenções sutis e ideologicamente propositadas, dali para frente.

Um ano depois, por exemplo, o número de americanos desembarcados no Brasil era de 4.968. Número superior a todos os anos anteriores. A maioria vinha morar no Nordeste, com destaque para Pernambuco. A Sociedade Cultural Brasil-Estados Unidos chegou a abrir um curso intensivo de português para técnicos americanos que vinham trabalhar no estado. Também resultante desse intenso fluxo, o voo Recife-Nova York foi inaugurado. Durava 9 horas, menos que por exemplo uma viagem de carro para Petrolina.

No interior, a presença americana se deu através do programa Corpos da Paz. Jovens voluntários que atuavam em trabalhos comunitários e agrícolas em pequenos municípios no Nordeste, muitas vezes sem funções específicas ou incentivos financeiros.

No documentário Em Nome da América lançado em 2017, o diretor e professor de cinema da UFPE Fernando Weller, traz uma aprofundada pesquisa sobre a atuação dos Corpos da Paz no interior de Pernambuco. O longa expõe as contradições entre as intenções humanitárias dos voluntários e os interesses políticos e ideológicos do governo norte-americano. ‘’No ponto de vista institucional, o Corpos da Paz, como todas as outras instituições que estavam atuando no Nordeste nessa época, tinham objetivos claros e anunciados. Eles queriam promover uma modernização liberal para combater uma ameaça comunista. Do ponto de vista individual que eu descobri através de entrevistas que fiz com ex-voluntários, os motivos são os mais diversos possíveis. Grande parte desses jovens vieram por não querer servir na Guerra do Vietnã. Enquanto as mulheres buscavam uma alternativa ao modo de vida tradicional ao de dona de casa. Às vezes nem sabiam que vinham para o Brasil’’ conta o diretor.

Imagem: Em Nome da América/Divulgação

Durante as pesquisas para o filme, Fernando descobriu métodos utilizados pelo governo norte-americano para obter informações por meio dos voluntários. ”Eles se aproveitavam do conhecimento de campo e da experiência dessas pessoas, o governo norte-americano obtinha informações sobre várias cidades do interior nordestino, através dos relatórios. ‘’ afirma, e completa: ”É uma forma indireta de monitorar. É um conhecimento muito mais fino da realidade do país. Isso é um tipo de inteligência que é muito mais sutil do que o estereótipo do espião da CIA’’.

A Guerra ideológica pré-Golpe

Na Região Metropolitana a presença americana e suas intervenções também se faziam presentes. No Recife, em 1963, havia sido instalado o maior escritório no mundo da USAID (Agência Americana para o Desenvolvimento Internacional). Além disso, o consulado norte-americano, naquele ano, nunca havia contado com uma equipe maior. Eram 14 vice-cônsules e 1 cônsul, que segundo informações apuradas pelo renomado historiador brasileiro, Luiz Alberto Moniz Bandeira, era agente da CIA.

Era assim que Pernambuco e o Nordeste em geral estavam situados no epicentro de uma batalha ideológica, em que segundo Weller: ”Um lado criava o outro para justificar suas ações. Nunca houve o real perigo de uma revolução comunista na época, tudo era fabricado’’. E nesse cenário de pretextos e interesses escamoteados, os Estados Unidos começaram a atuar diretamente nos processos políticos brasileiros. É o que analisou o jornalista pernambucano Vandeck Santiago, em seu livro Pernambuco em Chamas: a intervenção dos EUA e o Golpe de 1964 – que traz reportagens, arquivos e entrevistas inéditas sobre os bastidores do golpe de 64 e a presença americana no Nordeste. ‘’Em 1962, o IBAD (Instituto Brasileiro de Ação Democrática) teve um envolvimento gigantesco naquelas eleições. Apoiou financeiramente 869 candidatos, sendo 600 a deputado estadual, 250 a federal, 11 a senador e 8 a governador. Todos hostis ao comunismo, contra o Governo João Goulart e pró- Estados Unidos’’ conta Vandeck, que apurou dados e relatórios do IBAD e também da CIA.

Um dos relatórios encontrados por Vandeck se chamava ‘’As eleições brasileiras’’ e relatava: ‘’As três eleições mais significativas ocorrerão em Pernambuco, o Estado mais importante do empobrecido Nordeste brasileiro; em São Paulo, o coração industrial do Brasil; e no Rio Grande do Sul, que é o Estado natal do presidente esquerdista Goulart […]’’.

Imagem: Em Nome da América/Divulgação

Situando na história, em Pernambuco, naquela época, Miguel Arraes se candidatava pelo PST com apoio do PCB, pela primeira vez ao cargo de governador do Estado de Pernambuco. De ideais contrários e pró-EUA estava João Cleofas, candidato da UDN.  O Recife também vivia uma polarização ideológica bem estabelecida. De um lado, apresentava-se um candidato à esquerda que defendia reformas progressistas, principalmente no campo, onde as lutas estavam se radicalizando e ganhando mais latência. Do outro, um candidato à direita, apoiado pelos norte-americanos, e representante das oligarquias canavieiras.

A atuação americana nas eleições daquele ano ocorreu de diversas formas como conta Vandeck, ‘’A campanha do Cleofas publicava constantemente matérias nos jornais, denunciando ‘’planos sinistros’’ dos comunistas para agitar as eleições. Também aconteciam ameaças anônimas de morte contra Arraes. Para o governo norte-americano, Arraes havia substituído o líder das Ligas (Francisco Julião) como o porta-voz do radicalismo no campo’’.

Após as eleições, em maio de 1963, o Congresso instaurou a CPI para investigar ações suspeitas envolvendo o IBAD. Entre os depoimentos, destacava-se o de Arraes, que havia vencido a eleição no ano passado. No seu livro O Governo João Goulart: As lutas sociais no Brasil 1961-1964, Moniz Bandeira investigou através do depoimento do então governador de Pernambuco, as fontes de recursos do órgão. ‘’Os recursos que o IBAD geriu, entretanto, não provieram apenas de fontes no exterior. Segundo o governador Miguel Arraes, que com documentos, informou à CPI, o IBAD também recebeu contribuições de companhias estrangeiras instaladas no Brasil, entre as quais a Texaco, Coca-Cola, IBM […] na maioria norte-americanas’’.

Apesar de todos os investimentos americanos, o nacional-reformismo saiu triunfante nas eleições de 1962. A vitória de Arraes em Pernambuco e a de Brizola no Rio Grande do Sul fortaleceu a luta pelas reformas de base e intensificou a campanha pelo restabelecimento do presidencialismo. Em contrapartida, vendo a não evolução de seus planos e ideais no território brasileiro, os americanos intensificaram suas ameaças e ações contra o governo João Goulart.

Em 1963, após a intensificação das sanções a Cuba, dirigentes da CIA passaram a considerar o Brasil o mais urgente problema na América Latina. O jornal The New York Times, na época, noticiou que a situação financeira do Brasil, ‘’cada vez pior’’, inquietava o presidente Kennedy e que ”Ele ainda mais se preocupava com a possibilidade de a esquerda tentar impor soluções totalitárias aos problemas do Brasil”. A partir dali, como conta a história, começou a se organizar movimentações intervencionistas mais intensas que desembocaram no catastrófico golpe de 1964.

 A Segunda Guerra Fria

Manifestação pró-impeachment da ex-presidente Dilma

De lá para cá, algumas coisas permanecem atuais. Para Fernando Weller, o imperialismo americano, ao que parece mais mascarado que antes, continua exercendo influências sobre processos políticos no Brasil. ‘’Durante a pesquisa para o documentário, eu observei que o império americano se interessou nos anos 60 em comprar sedes de sindicatos rurais em Orobó. Eu não acho que seja teoria da conspiração pensar no quanto eles participaram no golpe de 2016 aqui no Brasil. Se eles estavam interessados em sindicatos no interior do Nordeste, por que eles não estariam interessados em sabotar a Petrobrás ou em promover a venda da Eletrobrás?’’ questiona.

É fato que o governo dos Estados Unidos atuou diretamente em processos no Brasil durante os anos de 2013 até agora, principalmente no golpe de 2016. Por exemplo, no Manual para Guerras Não-Convencionais das Forças Especiais do Exército dos EUA, é possível enxergar muitos elementos da chamada Guerra Híbrida, que surgiu em 2010 e diz muito sobre os elementos linguísticos e simbólicos presentes na atual polarização do país em combates contra certos ”espantalhos”. Esse tipo de ”Guerra” utiliza ‘’aliados internos’’ para validar suas ações: o Judiciário, o Parlamento, empresas ou outras estruturas. Algo que lembra muito o cenário do início da década de 60.

Se em 64 tivemos estruturas como o Exército brasileiro trabalhando como um ‘’aliado’’ americano, hoje o Judiciário faz por onde receber a alcunha. Em um vídeo que circula pela internet, Kenneth Blanco, na ocasião vice procurador geral adjunto do Departamento de Justiça dos Estados Unidos (DOJ) discursava exaltando a cooperação de estruturas do governo americano com a Operação Lava-Jato. Apesar da naturalidade com que o vice procurador tratou a manobra, a cooperação internacional entre procuradores e departamentos de justiça estrangeiros, sem seguir procedimentos previstos pela legislação, é ilegal e fere a soberania da nação. Outro exemplo dessa sútil intervenção norte-americana apareceu recentemente em informações vazadas pelo WikiLeaks – que mostram documentos internos sobre o treinamento de agentes judiciais brasileiros. Entre eles, o juiz e atual ministro da Justiça e Segurança Pública, Sérgio Moro.


Referências: 

O Governo João Goulart: As Lutas Sociais no Brasil – 1961 – 1964. Moniz Bandeira, Luiz Alberto. 8º Edição, Editora UNESP 

Pernambuco Em Chamas: A Intervenção dos EUA e o Golpe de 1964. Santiago, Vandeck. 1º Edição, CEPE Editora. 

http://operamundi.uol.com.br/dialogosdosul/wikileaks-eua-criou-curso-para-treinar-moro-e-juristas/15072017/ acessado em 28/03/2018 

http://operamundi.uol.com.br/dialogosdosul/o-golpe-no-brasil-como-elemento-da-guerra-hibrida/03042018/ acessado em 28/03/2018 

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